quinta-feira, 7 de julho de 2011

Cartas a Théo, Vincent Van Gogh

"O que é desenhar? Como o conseguiremos? é a ação de abrir-se um caminho através de um muro de ferro invisível, que parece encontrar-se entre o que sentimos e o que podemos. como atravessar esse muro, já que de nada serve golpeá-lo com força? Devemos minar este muro e atravessá-lo à base de lima e, no meu entender, lentamente e com paciência. e é assim que poderemos continuar assíduos neste trabalho, sem nos distrairmos, a menos que não ponderemos e não arranjemos nossas vidas segundo nossos princípios. e isto vale tanto para as coisas artísticas quanto para as outras. e a grandeza não é uma coisa fortuita, ela deve ser desejada. determinar se os atos de um homem devem conduzi-lo aos princípios, ou os princípios aos atos, esta é uma coisa que me parece difícil de saber, e que vale tanto a pena quanto saber primeiro quem nasceu primeiro, se a galinha ou o ovo. mas considero como uma coisa positiva e de grande importância que nos esforcemos em desenvolver nossa energia e nosso pensamento".
(desenho retirado do vangogh-desenhoepintura.arteblog.com.br

Ubuntu

Equipe nova se conhecendo, trazendo novas vivências, somando forças, criando laços...UBUNTU!
(texto da Giuliana Capello, do blog Gaiatos e Gaianos)

Não, não, este post não vai tratar de software livre. O tema da vez é o Ubuntu nascido na África, gerações e gerações antes de nós, como uma filosofia ou um conjunto de valores éticos que não cabe numa única definição – porque é mais fácil entender com o coração e não como um apanhado de palavras bem articuladas.

Dia desses recebi um email que despertou minha curiosidade em saber um pouquinho mais sobre essa história de nome engraçado. A mensagem relatava uma brincadeira que teria sido promovida por um antropólogo durante suas pesquisas numa tribo africana. Diz a história que ele havia deixado debaixo de uma árvore um bonito cesto de doces comprados na cidade. Então, ele chamou as crianças e propôs uma corrida até as guloseimas. Quem chegasse primeiro ficaria com o prêmio. Mas, para sua surpresa, quando ele disse “já!”, todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à arvore dos doces. Quando chegaram lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem, felizes. O antropólogo, então, perguntou por que elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ter ficado com tudo e, assim, comeria muito mais doces. E as crianças simplesmente responderam: “Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?”

Entendeu o que é Ubuntu? Talvez você, tanto quanto eu, ainda tenha dúvidas e fique inseguro ao tentar explicar a alguém o que é, afinal, Ubuntu. Apesar disso, o espírito dessa prática filosófica, digo por mim, tocou-me profundamente. Ubuntu significa: “Sou quem sou, porque somos todos nós”. É bonito, não?

Ubuntu fala sobre a noção de comunidade que, infelizmente, muitos de nós perdemos pelo caminho, em algum momento. É aquele sentimento de solidariedade, gentileza, respeito, tolerância e pertencimento que faz das relações, atitudes e comportamentos humanos experiências ricas, únicas, transcendentais.

Para o arcebispo Desmond Tutu, prêmio Nobel da Paz, Ubuntu é um dos presentes da África ao resto do mundo. Envolve hospitalidade, cuidado com os outros, ser capaz de dar um passo a mais pelo bem dos outros. “Acreditamos que uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas, que minha humanidade está vinculada indissoluvelmente à sua. Quando desumanizo você, inexoravelmente me desumanizo. O ser humano solitário é uma contradição em termos, portanto, trabalhe para o bem comum porque sua humanidade vem de sua própria pertença”, diz ele.

Quando penso agora na minha comunidade na ecovila Clareando, sinto-me renovada ao sentir o quanto sou mais feliz hoje por fazer parte dela e ser capaz de entender com todos os meus sentidos o que é essa tal qualidade de pertença ou pertencimento, de sentir-se parte de algo, sempre junto com outras pessoas. Para mim, o que falta à humanidade hoje para atravessarmos as crises socioambientais é justamente essa palavrinha: Ubuntu. É claro que não sou a única a pensar assim, não estou sendo muito original, na verdade. Várias lideranças mundiais já se referiram ao conceito de Ubuntu para falar das carências de um conjunto de qualidades humanas deixadas para trás, tão equivocadamente. Bill Clinton já discursou sobre Ubuntu, assim como Nelson Mandela. Em poucas palavras, Ubuntu conecta os seres humanos, destrói a indiferença diante da dor do outro, incorpora a troca de sorrisos com o vizinho como um indicador de bem-estar, saúde e qualidade de vida.

E tenha certeza: a solidão que muitas pessoas sentem como uma angústia profunda é falta de Ubuntu, desse algo que nos acolhe como uma lareira em dias frios. Nas palavras usadas pela Fundação Tutu na Inglaterra (vale a pena visitar o site e ler mais sobre o assunto), nós apenas podemos ser humanos quando estamos juntos. Esse é o único jeito.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Luto? Não. Esperança!

Querida companheira de equipe,
Ainda estou com um nó no peito por causa da sua saída - e sei que não sou a única. A briga anda feia, mas "eles" nem merecem comentários, aqui...
Só tenho a agradecer a sua ajuda e apoio incondicionais à causa, ao trabalho e a mim.
Você sempre pertencerá à equipe! Estamos para agendar o novo dia das reuniões clínicas . Quando eu souber, aviso e sinta-se, desde já, convocada para estudar, buscar saídas e lutar conosco, ok? Tem gente nova (e boa!), venha conhecer o grupo. Assim, no seu retorno, você estará bem atualizada! rsrsrsrsrsrs
Não tirarei você das listas, também. Você conquistou este espaço.
Diz pra gente seu novo local de trabalho e telefone. Precisando de QUALQUER coisa do CAPS (menos encaminhamento pro Everaldo... rsrsrsrs... - afinal, ele também já tem seu espaço entre nós), conte comigo, viu?

Beijos com carinho,

Claudia









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“Porque um dia é preciso parar de planejar, retirar os planos da gaveta e, de algum modo começar… “
“Única testemunha do meu horizonte comemorei, sentado, a minha maior conquista: PARTIR. (…)
Partí para minha mais longa travessia e, mesmo que ela só durasse um único dia, eu havia escapado do maior perigo de uma viagem, da forma mais terrível de naufrágio: não partir.”


Amyr Klink, in "Entre Dois Pólos"

Aldeia no circo





Com alguns ingressos gentilmente cedidos pelo Circo, aqui fica registrada a alegria da tarde de sábado, dia 18/06/2011.
Agradecemos à Ana Claudia, que batalhou pelos ingressos, à Ana Clara, que cedeu as fotos,aos companheiros que compartilharam a experiência e aos donos do espetáculo, pela oportunidade do passeio!

sábado, 18 de junho de 2011

enquanto o almoço não sai, MATURANA, UMA UTOPIA POSSÍVEL!

O almoço em ritmo de "espera-descongelar-pra-ver-no-que-vai-dar. O que fazer?
Daí que lembrei de um texto sobre o Humberto Maturana, que queria colocar aqui no blog. A Viviane comentou, na especialização, sobre autopoiese e ele é o bam-bam-bam da "coisa".
Aí vai:

MATURANA, UMA UTOPIA POSSÍVEL!
Juares Soares Costa(*)

No início dos anos 70, eu era um estudante do curso de Medicina e tive contato com o livro de Arthur Koestler, “O fantasma na máquina”. A partir da teoria da evolução e baseando-se, entre outras fontes, em estudos biológicos, o autor desenvolveu a tese, depois muito difundida, de que o ser humano seria um erro da evolução e, conseqüentemente, seria inviável enquanto projeto. A presença em nossa estrutura cerebral de vestígios do que ele denominou de cérebro réptil, seria a explicação para a agressividade humana e para os atos anti-sociais destrutivos. Enfim, em conseqüência deste erro evolutivo, o ser humano acabaria por destruir a si mesmo e ao planeta. Uma visão extremamente pessimista. Coincidência ou não, Koestler suicidou-se em 1983, juntamente com sua esposa.
Estávamos no início dos anos 70, e ainda ouvíamos os ecos das palavras de ordem dos anos 60: Paz e Amor; Faça amor e não a guerra; Liberdade; É proibido proibir. O projeto de um mundo mais livre, igualitário e pacífico começava a ficar mais distante. A Ciência ajudava a desqualificar os sonhos de amor e solidariedade, reduzindo-os a gritos infantis dos jovens hippies,
que também um dia envelheceriam e compreenderiam a terrível verdade: o homem seria o lobo do homem. Nesta época, li uma reportagem na revista americana Time, “A geração centrada em si mesma”, que já anunciava a chegada de uma geração individualista e competitiva que, nos anos 80 e 90, ficou conhecida como os yuppies, jovens profissionais urbanos buscando o sucesso a qualquer preço e adeptos de um consumismo desenfreado. Uma postura diante do mundo que
continua muito presente até hoje. Muitos nos perguntamos então: O sonho acabou?
Nesta mesma época, um cientista chileno, o biólogo Humberto Maturana, juntamente com um ex-aluno seu, Francisco Varela, davam forma a uma das mais revolucionárias teorias do século XX e do século emergente: A TEORIA DA AUTOPOIESE. Inicialmente interessados em estabelecer uma teoria que pudesse definir o que é um ser vivo, e também em estudos sobre a cognição, Maturana e Varela descobriram a relação intrínseca entre VIDA e CONHECIMENTO: Viver é conhecer, é relacionar-se, é estabelecer vínculos de cooperação. Vínculos amorosos!
Autopoiese significa gênese de si mesmo. Os dois cientistas demonstram que, em última instância, o que diferencia os seres vivos dos não vivos, é a organização autopoiética, ou seja, a capacidade de participar de sua própria criação. Em função da estrutura e da organização dos seres vivos, é impossível qualquer tipo de interação do tipo instrutiva , ou seja, é impossível que o meio ambiente ou um ser vivo unilateralmente, possa determinar o que acontecerá dentro do organismo de outro ser vivo. Somos todos, da bactéria ao homo sapiens, seres determinados estruturalmente. Só são possíveis relações que possibilitem um encaixe, um acoplamento estrutural. No entanto, esta estrutura não é fixa, estática; o ser vivo muda ao longo de sua vida, em conseqüência das relações , repetidas que mantém com outros seres vivos e com o meio ambiente. Portanto, a estrutura, que não é apenas orgânica, muda, mas permanece a organização.
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(*) Médico, psiquiatra, terapeuta sistêmico, diretor do Instituto de
Terapia de Família e Comunidade de Campinas. Fone (19) 3242-2823
e-mail: juares@scosta.med.br







Maturana e Varela retomam a teoria da evolução. Reafirmam o que Gregory Bateson já havia dito a respeito das idéias de Darwin e que, infelizmente foram tão mal compreendidas. A evolução propicia a sobrevivência do organismo em interação com o meio ambiente. Não é o mais forte (the strongest) que sobrevive, mas a unidade organismo e meio ambiente mais adaptados, mais encaixados( the fittest). Não há evolução ou sobrevivência de organismos isolados, mas apenas dos organismos em relação com o meio e vice-versa. Quando estas características estruturais modificadas permanecem ao longo de gerações de uma linhagem, temos, então, uma herança, um processo histórico. E não são apenas as características genético-cromossômicas que são passadas de geração a geração, mas também as formas de relacionar-se. Assim, da estrutura e organização dos seres vivos, fazem parte não apenas aspectos biológicos, mas também as formas de condutas, aqui entendidas como sendo as "mudanças de postura ou de posição de um ser vivo, que um observador descreve como sendo movimentos ou ações em relação a um ambiente determinado”. (1). Quando se dão acoplamentos estruturais recorrentes entre organismos que têm sistema nervoso, se dá um processo especial, que são os FENÔMENOS SOCIAIS. E por sociais entendam-se apenas as interações que se dão entre seres vivos, especialmente os humanos, aqueles em que se conserva uma emoção básica.
Maturana diz que tudo que fazemos, todas nossas condutas, mesmo aquelas que chamamos de racionais, dão-se sob o domínio básico de uma emoção, que ele denomina AMOR. Não o Amor místico, transcendental ou divino, e também não uma virtude especial de alguns poucos, mas uma Emoção, uma disposição corporal que nos possibilita algumas condutas e outras não e que funda o humano.
Ainda segundo Maturana, o Ser Humano surge quando se juntam uma série de características estruturais e organizacionais: o convívio em grupo, baseado na ajuda e proteção mútuas, o compartilhamento dos alimentos, o cuidado e proteção dos filhotes, e o prazer sensual e sexual da convivência entre machos e fêmeas, independentemente da reprodução. Todo este processo dá-se dentro da Linguagem. E Linguagem aqui significa muito mais do que o verbal.
Resumidamente, é disto que fala a BIOLOGIA DO AMAR. E aqui usamos o verbo Amar, ao invés do substantivo Amor, pois Amar pressupõe a ação de alguém. O Amor para Maturana é uma ação, uma atitude, onde o OUTRO É ACEITO COMO LEGÍTIMO OUTRO NA CONVIVÊNCIA. Nas palavras do próprio Maturana, temos: "O amor não é um fenômeno biológico eventual nem especial, é um fenômeno biológico cotidiano. Mais que isto, o amor é um fenômeno biológico tão básico e cotidiano no humano, que freqüentemente o negamos culturalmente, criando limites na legitimidade da convivência, em função de outras emoções. (...) A emoção que define o que chamamos de relações sociais é o amor, porque as ações que constituem o que chamamos de social são as de aceitação do outro como legítimo outro na convivência. (...) Nem todas as relações humanas são do mesmo tipo." (2) Relações que não se baseiam na aceitação do outro como legítimo outro, não são relações sociais. As relações de trabalho, por exemplo.
A esta altura, as tradicionais divisões e separações entre biológico e cultural, individual e social, emoção e razão, não fazem mais sentido.
Somos seres basicamente amorosos, em função de nossa organização e estrutura, mas vivemos em uma cultura patriarcal que nega nossos fundamentos amorosos, matriarcais.
Não nascemos sabendo fazer discriminações raciais, culturais ou de gênero. As crianças naturalmente se aceitam, independentemente de raça, classe social ou religião. Toda intolerância é conseqüência de um aprendizado cultural e social.
E quem diz isto agora é um BIÓLOGO, que nos mostra que o que já foi chamado de utopia é apenas uma coerência com nossa biologia: A BIOLOGIA DO AMAR.
Se aceitamos esta forma de ver o mundo e os seres vivos, se não negamos os fundamentos amorosos do humano, então vemo-nos obrigados a repensar todas nossas relações com outras pessoas, outros seres vivos e com nosso meio ambiente. Até nossas práticas profissionais precisam ser revistas. Em que emoção se baseiam?
Como ficam a Educação, as Psicologias e as Terapias, as Relações de Trabalho nas Empresas, as Questões Ambientais, as Práticas de Saúde? Vamos refletir sobre estas questões nos textos seguintes. Por enquanto, ficamos com as novas possibilidades que Maturana nos traz.
Muitos podem dizer que estas idéias constituem uma nova utopia. Pode ser que seja uma utopia, mas "com a vantagem que já nasce sem oposições (...) uma utopia que finalmente permite aos seres humanos se reencontrarem consigo próprios, reencontrando-se entre si". (3). E como disse um outro poeta, talvez sem saber que estava de acordo com as idéias de Maturana sobre a construção conjunta da realidade: "Sonho que se sonha junto, não é sonho, é realidade". (4)


REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1- Maturana e Varela, A Arvore do Conhecimento, ed. Palas Athena
2- Maturana, Emoções e linguagem em e educação e política, Ed. UFMG, 2002
3- Rabelo, A., prefácio de Emoções e linguagem...., Ed. UFMG, 2002
4- Raul Seixas

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Da série: Recortes da Diva

Tenho uma amiga que já não precisa mais pagar pelas passagens de ônibus, há um bom tempo. Entretanto, este não é o maior trunfo que a idade lhe deu. Ela, linda e vaidosa senhora, continua buscando, através de constante trabalho pessoal, aprimoramento do saber e do sentir. Pois bem; semanalmente, recebo dela recortes de jornal, criteriosamente escolhidos, – talvez para me ajudar a crescer, talvez pelo puro prazer de doar sua percepção de mundo, semeando ideias e ideais. Enfim, sua generosidade me encanta.

Entre o dito e o não dito
Regina Costa, Estado de Minas
As palavras surtem seus efeitos. Sempre provocam, causam reações, sejam elas quais forem. Sendo bem ditas curam, o contrário também vale. Causam impacto por serem portadoras de ideias, verdades, mentiras, por relatarem situações vividas. Também na fala podemos identificar significados não explícitos.
Nas entrelinhas escutamos o não dito, o sugerido, o escondido. É também um conteúdo que a própria pessoa fala, porém ignora. É interessante. Nem sempre este saber acompanhava a experiência. E este saber, a própria pessoa não reconhece senão a partir da palavra daquele que escuta. É um saber inconsciente. Está fora da consciência, mas é um saber.
Como se, estando enrolados em uma situação, encontrássemos a porta de saída a partir de uma ideia que se torna consciente. Uma lembrança encoberta que vem à tona. De repente produz um insight, como costumávamos chamar um estalo de entendimento, de descobrir uma lógica. Daí entendermos por que estávamos tão angustiados, tomados pela ansiedade, irritados sem saber por quê. E então podemos nos conduzir conforme decidirmos, a nosso modo.
Digam, leitores, se isso não ajuda a solucionar muitas passagens de nossa vida, as quais só podemos resolver caso tenhamos entendido não apenas o nosso lado como também as motivações e atitudes nem sempre declaradas, nossas e daqueles que nos cercam. Por isso não nos cansamos de nos surpreender com um saber que nós não sabíamos, mas possuímos, mesmo assim.
Este saber é muito interessante e importantíssimo. Algumas pessoas preferem chamar de intuição, revelação ou o que quer que seja. Eu e, ouso dizer, todo psicanalista preferimos acreditar no saber inconsciente. Não sabemos só o que pensamos, o que é consciente. Nosso saber vai além, muito além. A análise nos conduz a saber um pouco sobre este saber oculto ou sob recalcamento (no esquecido).
Os sonhos mostram isto frequentemente. As piadas também. Elas dao recados do não dito que sai de nossa boca, e de repente todo mundo ri à beça. Porque todos entenderam a alusão e foram atingidos no ponto, sem pensar. Tocados como dizem os esgrimistas quando são atingidos pala espada do parceiro: touché!
Uma piada: dois portugueses foram jogar tênis e voltaram descalços. Decerto ela é corriqueira e preconceituosa, até mentirosa; deixaram prova disso muitos portugueses geniais: José Saramago, Fernando pessoa, Luís de Camões e, ainda vivo, Boaventura de Souza Santos. Há muitos outros portugueses.
A piada, no entanto, nos arranca risadas sem passar pelo pensamento, pois ela revela muito mais do que diz. Ela revela nosso ressentimento por nossos colonizadores e nossa crítica a eles, pois, tendo se apropriado de nossas riquezas naturais – ouro, diamantes, pedras preciosas – , eles perderam tudo. Além disso, impediram durante longos anos a alfabetização, o esclarecimento e o progresso dos colonizados.
Sejamos justos e não nos esqueçamos que também foram inteligentes. Napoleão Bonaparte declarou ser dom João VI o único monarca a enganá-lo para não ser destronado, fugiu da invasão napoleônica às pressas para o Brasil. Sobre esta esperteza, por nós herdada, podemos falar outro dia...

domingo, 12 de junho de 2011

Reproduzo o texto de Araxá, por admiração e respeito. Parabéns!

quinta-feira, 28 de abril de 2011
CAPS: o que é isso?

A psicose não é defeito/déficit na racionalidade. Ela é desrazão, nem menos, nem mais, é uma outra forma de funcionamento, assim, como o mítico e o poético.
Bichuetti


Atualmente, fala-se muito em todo o país sobre a Luta Antimanicomial, mas desinstitucionalizar a loucura não é um processo apenas técnico, jurídico, legislativo ou político.
A Reforma Psiquiátrica é muito mais do que derrubar os muros e grades dos manicômios, desativar celas fortes, proibir eletrochoque, “sossega-leão” ou camisa de força. Primeiro, é preciso quebrar dentro das pessoas o preconceito de que o “louco” é perigoso, inválido, improdutivo e irresponsável. Mesmo porque, a agressividade que ele, por vezes apresenta nas crises, ocorre muito mais por inabilidade ou violência dos familiares ou falta de capacitação do profissional de saúde.
A desinstitucionalização da loucura não ocorre por decreto, portaria ou lei. Ela se dá no cotidiano, e a efetividade das transformações só será possível quando toda a sociedade assumir o desafio de conviver com a diferença e aceitar a diversidade.
Dentro dessa lógica, surge o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) um serviço público de saúde mental que visa prestar atendimento às pessoas com sofrimentos psíquicos graves e persistentes, diminuindo e evitando internações psiquiátricas. Os usuários voltam para casa todos os dias, sem a quebra dos laços familiares e sociais, fator muito comum em internações de longa duração.
A clínica antimanicomial busca amenizar e cuidar da crise aguda sim, para que as pessoas possam recuperar a autonomia e se inserir nas atividades cotidianas. Assegura a monitoração apropriada da medicação, oferece assistência social, apoio familiar, espaço para a elaboração psicológica (psicoterapia), a terapia de grupo e oficinas terapêuticas (trabalhos manuais, culinária, esportes, música, poesia, tecelagem costura etc.). Assim, a crise não é vista como um transtorno ou um incômodo e o CAPS oferece um território continente e acolhedor marcado pela maternagem e a reconstrução do convívio social.
No CAPS, todas as práticas são integradas desenhando um projeto terapêutico individualizado para cada paciente e não, um tratamento padronizado. Todos os profissionais que lá trabalham têm que ter um objetivo comum: a valorização do paciente psiquiátrico e sua possibilidade de reprodução social.
É essencial que haja supervisão externa e formação permanente dos profissionais, para que não se tornem meros “consertadores” em saúde mental.
É preciso cuidar para que as práticas dos profissionais de saúde mental do CAPS não se reduzam à divisão de tarefas, cada especialista desempenhando sua função isoladamente. Esse funcionamento pode reforçar o sofrimento dos usuários em doença mental.
Segundo a Linha Guia de Saúde Mental do Ministério da Saúde:

Não se pode definir uma equipe como um aglomerado de trabalhadores, na qual cada um deles exerce apenas a sua função profissional específica. As identidades profissionais não podem servir de pretexto para o apego burocrático a uma função. Se é verdade que compete ao médico prescrever, o que o impede de levar os usuários a um passeio? Se a psicóloga deve responder por atendimentos individuais, por que não pode coordenar uma oficina? Se for atribuição da enfermeira supervisionar o trabalho dos auxiliares de enfermagem, por que não pode escutar e acompanhar seus pacientes? Se o porteiro deve zelar pelos que entram e saem, não lhe cabe também fazer companhia a quem fica? Também não podemos entender as equipes apenas como uma forma de dividir o trabalho, em que cada um faz “a sua parte”, sem necessitar preocupar-se com o produto total. Uma equipe de Saúde deve compor-se de profissionais de formações diferentes, assegurando assim a diversidade de suas funções e a troca de suas experiências. Naturalmente, as especificidades das diferentes profissões devem ser respeitadas.

Para Bichuetti (2010)
O CAPS não funciona numa perspectiva manicomial. Se assim o for, pode ser um ambulatório ou algo similar, não um CAPS. O manicômio é mais que um lugar de portas fechadas. É a especialização, a segmentação, as divisões que limitam a comunicação e influenciam no viver da clínica. Para Rotelli, é o lugar de troca zero. Estamos inventando um “entre” para o diálogo? O saber de alguém anula o desejo do outro? Porque podemos estar fragilizando as trocas e reinstituindo o manicômio. (...) No antimanicomial, a circulação é importante. É proibido entrar na cozinha, mas em casa entramos, temos acesso livre. Não tem como trabalhar sem maternagem no CAPS, não há CAPS sem festa: o CAPS não pode se converter num aparato cinzento de intervenções anêmicas e de silêncio normatizador.

O CAPS trabalha bastante articulado com a rede de serviços da região, pois tem a função de dar suporte e supervisão à rede básica também, além de envolver-se em ações intersetoriais – com a educação, trabalho, esporte, cultura, lazer etc. – na busca de reinserção dos seus membros em todas as áreas da vida cotidiana. As intervenções terapêuticas no espaço extra institucional são muito importantes. A ação terapêutica pode se dar durante os passeios, viagens, excursões, no clube, no cinema, na piscina, no campo, na cachoeira, nas bibliotecas, no restaurante, no bosque, no shopping, nos museus e em todos os espaços onde os sujeitos possam exprimir e exercitar sua subjetividade.
Existem algumas modalidades de CAPS, de acordo com as diferentes necessidades de cada território: CAPS I – para municípios com populações entre 20.000 e 70.000 habitantes, CAPS II – para populações entre 70.000 e 200.000 habitantes, CAPS III - acima de 200.000 habitantes (esse é o único que funciona 24 horas, incluindo feriados e fins de semana). CAPSi – atende crianças e adolescentes (até 17 anos de idade), e CAPSad – atende, especificamente, usuários de álcool e outras drogas cujo uso é secundário ao transtorno mental clínico.
Enfim, aquele que procura esse serviço de saúde mental não é um doente, mas uma pessoa em desequilíbrio, uma subjetividade, uma singularidade. A tarefa da equipe é facilitar o seu processo de descoberta de um modo menos doloroso de autoexpressão para ele e sua família, acompanhando a transformação de sua vida concreta e cotidiana, que alimenta o sofrimento.
A nova clínica antimanicomial acolhe os sujeitos e não somente a patologia, e é realizado “um trabalho de colagem dos pedacinhos. Remontagem de sentido e de valor. A busca meticulosa do tesouro contido na desordem, no caos” (MELMAN, 1999).
Conclamo o envolvimento de toda a sociedade e o apoio político e operacional dos governantes para que o CAPS de Araxá seja credenciado pelo Ministério da Saúde.

Angela Maria Amâncio de Ávila - Psicóloga- CRP-04/2683
Postado por Camila Bahia Leite às 23:01

sábado, 23 de abril de 2011

Parabéns pelo trabalho nesses dois anos de blog, Araxá!

Do pessoal de Araxá:

Saúde Mental - Atenção Básica
Olá! Em março, este blog completou 2 anos de existência! A matéria abaixo, foi a primeira postada em março de 2009.

A Política Nacional de Saúde Mental propõe que as práticas de saúde mental na atenção básica/saúde da família devam ser substitutivas ao modelo tradicional e não medicalizantes ou produtoras da psiquiatrização e psicologização do sujeito e de suas necessidades. Por isso, é necessária a articulação da rede de cuidados, tendo como objetivo a integralidade do sujeito, constituindo um processo de trabalho voltado para as necessidades singulares e sociais e não somente para as demandas. Considera-se que a atenção básica/saúde da família é a porta de entrada preferencial de todo o Sistema de Saúde, inclusive no que diz respeito às necessidades de saúde mental dos usuários. Busca-se resgatar a singularidade de cada usuário, investindo no seu comprometimento com o tratamento, apostando em seu protagonismo, tentando romper com a lógica de que a doença é sua identidade e de que a medicação é a ‘única’ responsável pelas melhoras; investir nas suas potencialidades; auxiliar na formação de laços sociais e apostar na força do território como alternativa para a reabilitação social. Dessa forma, há uma convergência de princípios entre a saúde mental e a atenção básica. Para que a saúde mental aconteça de fato na atenção básica é necessário que os princípios do SUS se transformem em prática cotidiana. Podemos sintetizar como princípios fundamentais da articulação entre saúde mental e atenção básica/saúde da família: promoção da saúde; território; acolhimento, vínculo e responsabilização; integralidade; intersetorialidade; multiprofissionalidade; organização da atenção à saúde em rede; desinstitucionalização; reabilitação psicossocial; participação da comunidade; promoção da cidadania dos usuários. Na articulação entre a saúde mental e a atenção básica o apoio matricial constitui um arranjo organizacional que visa ações conjuntas. Nesse arranjo, o profissional da saúde mental responsável pelo apoio participa de reuniões de planejamento das equipes de ESF, realiza ações de supervisão, discussão de casos, atendimento compartilhado e atendimento específico, além de participar das iniciativas de capacitação. Esse compartilhamento se produz em forma de co-responsabilização pelos casos, que pode se efetivar por meio de discussões conjuntas, intervenções junto às famílias e comunidades. Uma forma de implementar o apoio matricial é através dos NASF (Núcleo de Apoio à saúde da Família). Desde janeiro de 2008 há regulamentação para a formação destas equipes, com recomendação explícita de que cada NASF conte com pelo menos um profissional de saúde mental. A mudança do modelo de atenção à saúde mental dentro do SUS é direcionada para a ampliação e qualificação do cuidado nos serviços comunitários, com base no território. Trata-se de uma mudança na concepção e na forma de como deve se dar o cuidado: o mais próximo da rede familiar, social e cultural do paciente, para que seja possível a retomada de sua história de vida e de seu processo de adoecimento. Aliado a isto adota-se a concepção de que a produção de saúde é também produção de sujeitos. Os saberes e práticas não somente técnicos devem se articular à construção de um processo de valorização da subjetividade, onde os serviços de saúde possam se tornar mais acolhedores, com possibilidades de criação de vínculos. Existe um componente de sofrimento subjetivo associado a toda e qualquer doença, às vezes atuando como entrave à adesão a práticas de promoção da saúde ou de vida mais saudáveis. Poderíamos dizer que todo problema de saúde é também – e sempre – mental, e que toda saúde mental é também – e sempre – produção de saúde. Nesse sentido, é sempre importante e necessária a articulação da saúde mental com a atenção básica/saúde da família.

Coordenação Nacional de Saúde Mental – Ministério da Saúde

sábado, 2 de outubro de 2010

AQUI, DOIDO VARRIDO NÃO VAI PRA DEBAIXO DO TAPETE 2

Assista por aqui:

http://www.vimeo.com/groups/caos/videos/15084595
“Aqui, doido varrido não vai pra debaixo do tapete” é uma das apostas para o Festival do Rio



Uma das promessas do Festival do Rio 2010 é o documentário “Aqui, doido varrido não vai pra debaixo do tapete”, dirigido por Rodrigo Séllos. O filme participa na Première Brasil da Mostra Novos Rumos, criada este ano e que se volta a filmes de novos realizadores e experimentos em novas linguagens.



O documentário, que foi exibido no Festival Brasileiro de Cinema Universitário, no Rio de Janeiro, sai do âmbito universitário e ganha também as telas internacionais, participando da mostra competitiva do XXV Festival de Cinema Latino Americano de Trieste, na Itália, e do Festival Outubro Independente, promovido pela secretaria de cultura de São Paulo, ambos no mês de outubro.



O filme, gravado em 2005, durante seis meses, no Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira (RJ), mostra através das histórias de vida de pacientes, familiares e equipe médica, o que se esconde por trás de estereótipos e preconceitos que cercam a doença mental.



“Durante as filmagens um dos personagens disse que é impossível definir a loucura, o que se pode deixar é que ela nos impressione e nos deixe marcas. Assim, a partir das marcas e sensações vividas, que construímos o filme. Uma relação de afeto que possibilitou a troca sincera entre realizador e personagem” explica o diretor. “Acredito que a forma leve e bem-humorada com a qual tratamos o tema ajuda na aproximação com o espectador, pois geralmente se fala da loucura de uma forma difícil e pesada. O que tentamos mostrar é o lado das possibilidades, da vida além da doença mental.”



Este é o primeiro filme de Rodrigo Séllos que cursa faculdade de cinema na Universidade Federal Fluminense (UFF) e do co-diretor, Rená Tardin, estudante de jornalismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O equipamento utilizado nas filmagens são da UFF, mas toda a pós-produção do filme foi feita com recursos dos próprios realizadores.



Assista ao trailer AQUI.



Exibições no Festival do Rio – Première Brasil – Mostra Novos Rumos:


Sessão de Estréia - 30/09 `as 15h no ODEON (Cinelândia)

01/10 (6ªfeira) no Estação Vivo Gávea 3 às 13h30 (Shopping da Gávea)

01/10 (6ªfeira) no Estação Vivo Gávea 1 às 18h10 (Shopping da Gávea)

02/10 (sáb) no Ponto Cine às 16h (Estrada de Cambuatá 2300 – Guadalupe)

03/10 (dom) no Cinema Nosso às 19h (Rua do Rezende 80 - LAPA)

Veja mais em www.caosecinema.com.br

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Do Bill: Fernando Pessoa

Recentemente
Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica.

Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo própria. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.

A coerência , a convicção, a certeza são, além disso, demonstrações evidentes - quantas vezes escusadas - de falta de educação. è uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é macá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade.

Uma criatura de nervos modernos de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predilecções literárias, mas sensações reigiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária.

Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm sobretudo, quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variãrão, como é de entender, consonte esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do ambiente transitório: é republicano de manhã, é monarquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, e católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos de anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo, uma invenção de louco quando, ante uma solidão do mar, ele não souber de mais do que da “Odisseia”.

Convições profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida.

Quando é que despertaremos para a justa noção de que a política, a religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética - a estética dos que ainda não a podem ter? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos de sinceridade e coerência tiver acostumada às suas sensações a viverem independentemente, se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida.

1915

Fernando Pessoa in Os Portugueses - A opinião pública

sábado, 11 de setembro de 2010

Quando acabar o maluco sou eu

http://espacoartaudciadeteatro.blogspot.com/
Quando acabar o maluco sou eu

O inusitado título desta postagem, além de ser o nome de uma música de Raul Seixas, é também do novo livro da editora Espaço Artaud.
Lançado no dia 30 de julho de 2010, durante o 23º Inverno Cultural da Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ), Minas Gerais, o Quando acabar o maluco sou eu é um livro de autoria do professor Walter Melo em parceria com a equipe do Núcleo de Estudo, Pesquisa e Intervenção em Saúde (NEPIS), da mesma
Universidade.
O livro é fruto do II Seminário de Saúde & Educação: quando acabar o maluco sou eu, ocorrido em setembro de 2008, na UFSJ. Nele estão reunidas todas as palestras ministradas durante o evento, nas quais foram abordados temas referentes à saúde mental, direito, educação, literatura e arte.
Dessa forma, o Quando acabar o maluco sou eu torna-se mais que um livro. Ele é também o retrato de uma ação conjunta que visa contribuir na melhoria da formação dos novos profissionais da psicologia e de outras áreas, ampliando os debates referentes ao campo da saúde e favorecendo a implementação de novas
parcerias e de ações intersetoriais.

sábado, 4 de setembro de 2010

Do Blog da Associação Maluco Beleza, de 03/09/2010

E

PSICOSE, DROGAS E DITADURA

O belo e o verdadeiro.
A poesia e a ciência...
Os relatos que fazemos, sobre tudo o que rola neste grupo: drogas, psicose, ditadura, etc., são relatos de personagens reais, que dignificam o ser humano. Muitos desapareceram, sumiram da vida. Outros não morreram, porém... não existem mais. Vagam pela vida, destruídos psicologicamente, perdidos, andando, de lá prá cá, sem eira nem beira. Uma energia vital, que um dia, existiu, mas, que foi-se apagando, se apagando, até sua destruição total.
Como não se pensar no psicótico? Como não se pensar no usuário, pesado, de drogas? Como deixar de pensar no crack? O que sobra para eles? NADA, salvo a medicação ou... uma pedra e, talvez, algum envolvimento nosso, mas, como sempre, muito exíguo, pequeno, insuficiente, querendo ajudar, mas, absolutamente impotentes pela situação, tão acima das nossas possibilidades e das nossas forças. Como uma erupção vulcânica, trágica e destruidora, mas, ao mesmo tempo, deslumbrante e bela. É assim que vemos a doença mental grave e, é assim que vemos, também, o crack. Uma erupção humana, fantástica, sem limites, incontrolável e, no mesmo instante, bela e trágica, tão próxima de nós e, ao mesmo tempo, tão distante, mas, verdadeira e humana, demasiadamente humana. Talvez, a fuga, o escape, a forma de esquecer a dor, a angústia e o desespero dos inconformados, dos desesperados, dos que sonham e dos que deliram, dos que procuram em vão, uma saída desse mundo cinza, medíocre onde são obrigados a viver. Sem crenças, sem acordos, sem intermediários, sem negociar com ninguém sua possível salvação. Felicidade? Afinal, o que é isso? Serve para que? Ser feliz ou infeliz, nada mais é, do que uma sensação, nada mais. O que nos destrói é a nossa própria culpa e, em razão dela, esse voluntarismo exacerbado em querer salvar nosso semelhante, qualquer semelhante. Lamentável, apenas, é que a droga ou a psicose, acabem por anestesiar tudo o que de mais forte e revolucionário existe dentro do jovem: SUA INDIGNAÇÃO, a “energia da indignação”, apontada por Reich. Ajudar é o que desejamos, mas, como, se não estamos nas mesmas condições deles? Só com nossas intenções, vontades e desejos? Será que eles poderia encontrar junto de nós, a salvação? Será? Quem somos nós, que nada sabemos? Como minorar esse sofrimento, que só encontra saída, na psicose e na droga? Será a ciência a salvação deles? A medicina, a psiquiatria, a psicologia e todas as demais “logias” serão o caminho da salvação? Será? Será que torná-los hipocondríacos os libertará, os salvará? Essas preocupações são apenas nossas, não são deles. Eles querem, apenas, viver. Será que a medicina tem amor ao próximo ou, seu amor é dedicado somente à ciência, como muitas pessoas que amam, mas não, ao seu semelhante, amam somente o amor? Quantos anos levamos para morrer? Quem sabe? Eu já levei 77 e, estou ainda, por aqui.

Que o humor e a solidariedade, jamais nos abandonem.

O que é mais importante, o belo ou, o verdadeiro?

A poesia, ou a ciência?

Geraldo

sábado, 28 de agosto de 2010

REPASSANDO:

Conservatório de Pouso Alegre abre inscrições para 2011 PDF Imprimir E-mail
Ter, 24 de Agosto de 2010 22:44

As inscrições estarão abertas de 30 de agosto a 30 de setembro de 2010, de segunda a sexta, das 8h as 21h.

Os candidatos com idade entre 6 e 14 anos devem apresentar: Certidão de Nascimento, Declaração de Matrícula e frequência da escola regular. A taxa de R$ 5,00 é uma contribuição voluntária

O Conservatório de Pouso Alegre funciona à rua Francisco Sales, Centro de Pouso Alegre.

Informações no telefone (35) 3425 2800.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

1ª OFICINA DE PATCHWORK DA ALDEIA - blog do Clube do Retalho de Pouso Alegre


Primeira Oficina de Patchwork no CAPS - Aldeia Vira Mundo




Foi dado o início da primeira oficina de patchwork no
CAPS Aldeia Vira Mundo,para usuários da saúde mental.
Foram oito participantes e todos se envolveram realmente e
demonstraram interesse pela atividade.

Agradecemos o apoio do Clube do Retalho de Pouso Alegre e das "quiltérias" Jane, Solange, Rosa, Lourdinha, Fátima e Marilda, que ajudaram a realizar essa oficina!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

"FAVOR REPASSAR À TODA REDE"

MOVIMENTO NACIONAL DA LUTA ANTIMANICOMIAL
NÚCLEO ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO

MANIFESTO EM DEFESA DA REFORMA PSIQUIÁTRICA
AOS CANDIDATOS A CARGOS ELETIVOS NAS ELEIÇÕES DE 2010

O Núcleo Estadual do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial/RJ , composto por usuários, familiares, profissionais, estudantes, simpatizantes e representantes de vários serviços e instituições do campo da Saúde Mental, vêm através deste documento, reafirmar os valores, princípios e conquistas do Movimento da Luta Antimanicomia l e da Reforma Psiquátrica realizados nestas últimas décadas.

Lembramos que nas décadas de 70 e 80, 97% dos recursos da área da Saúde Mental eram destinados exclusivamente a leitos psiquiátricos provendo uma atenção marcada pela tutela, reclusão, isolamento da sociedade, cronificação, que não foi capaz de sequer garantir os direitos humanos fundamentais, como o direito à própria vida.

A Reforma Psiquiátrica, integrada ao SUS, desde os primódios, buscou:

:* ser coerente com os avanços internacionais prescritos na Organização Mundial de Saúde e na Carta da ONU de 1991. (Proteção às Pessoas Portadoras de Transtorno Mental e Desenvolvimento da Assistência à Saúde Mental);

* dar cumprimento aos objetivos do SUS de uma atenção integral à saúde, de acesso universal, de base territorial, com equidade, participação e controle social;

* produzir novas modalidades de formação e exercício profissional em saúde mental abarcando as contribuições das diferentes disciplinas, com a democratização do trabalho nas equipes multiprofissionais, visando dar conta da complexidade e das várias dimensões do sofrimento
psíquico, do desenvolvimento da subjetividade e da qualidade de vida, movimento de autonomia e emancipação.

Esses princípios foram consensuados em Quatro Conferências Nacionais de Saúde Mental (1987, 1992, 2001, 2010), com ampla participação em todo território nacional; em duas Conferências Latino-americanas (Caracas, 1990 e Brasília 2003), bem como na Lei Federal 10216, de 06 de abril de 2001 que “dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental” e em 05 Encontros Nacionais e de Usuários e Familiares do Movimento da Luta Antimanicomial.

Além disso foram criados 1531 CAPS- Centros de Atenção Psicossocial, vários Serviços Residenciais Terapêuticos, Alas de Atenção à Crise em Hospitais Gerais, Centros de Atenção Psicossocial para Crianças e Adolescentes-CAPSI; Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e
Drogas-CAPSAD; Centros de Convivência, etc.

Consoante com o Sistema Único de Saúde (SUS ), o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial participa dos Conselhos de Saúde nos níveis federal, estadual, municipal e distrital com suas Comissões Temáticas, dos Conselhos Profissionais e Sindicatos da área de Saúde, da Comissão Estadual de Reforma Psiquiátrica e da Comissão Intersetorial de Saúde Mental do Conselho Nacional de Saúde através de usuários, familiares e técnicos do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, espaços nos quais exercemos nossa função de controle social, como representantes da sociedade civil organizada.

Ainda temos muitos desafios para melhorar a assistência psiquiátrica, dentre eles:

* Contratação, através de concurso público, de novos profissionais para esses espaços terapêuticos;

* Capacitação dos profissionais, evitando que esses espaços transformem-se em manicômios sem muros;

* Maior alocação de recursos para a área da Saúde Mental;

* Expansão dos ambulatórios de Saúde Mental, dos CAPS e dos Serviços Residenciais Terapêuticos, dentro das normas legais já estabelecidas;

* Aquisição e dispensação dos psicotrópicos de nova geração;

* Criação de Leitos Psiquiátricos em Hospitais Gerais, por 72 horas;

* Inclusão de equipes de Saúde Mental nas Unidades Básicas de Saúde, nos Programa de Saúde da Família e NASF (Núcleo de Apoio a Saúde da Família);

* Cumprimento pelos hospitais, da legislação sobre Internação Involuntária , que deverá ser comunicada ao Ministério Público no prazo legal de 72 horas;

* Criação de Projetos de Trabalho e Geração de Renda;

* Organização e fortalecimento das Associações de Usuários e Familiares já existentes;

* Implantação de novos Centros de Convivência a fim de promover atividades artísticas, culturais e de reintegração ao trabalho e renda.

Lutamos para que o poder público, nas três esferas de governo, se responsabilize para que a Reforma Psiquiátrica aconteça no Brasil com a qualidade que todos os cidadãos e, particularmente os usuários de
serviços Públicos e conveniados de Saúde Mental merecem e consoante com a legislação já aprovada.

Assim através deste Manifesto expressamos nosso compromisso com a continuidade da Reforma Psiquiátrica como política pública e convidamos os srs. Candidatos e suas assessorias a conhecerem estes novos serviços e os avanços da assistência humanizada que temos produzidos e gostaríamos de vê-la incluída, explicitamente, em seus programas de governo, com um apoio inequívoco à continuidade de Reforma Psiquiátrica no Brasil, bem como garantindo, se eleito, que
esta política tenha uma implementação decisiva por parte dos órgãos responsáveis por ela, particularmente o Ministério da Saúde e as Secretarias de Saúde.

Queremos ser ouvidos e continuamos disponíveis para debater e esclarecer os princípios e ideais que norteiam o processo de Reforma Psiquiátrica e do Movimento da Luta Antimanicomial no Brasil, no estado e no município do Rio de Janeiro.
Nestes 23 anos da Luta Ant imanicomial, queremos reafirmar que continuaremos a favor de uma Reforma Psiquiátrica Brasileira e na luta por uma “SOCIEDADE SEM MANICÔMIOS, SEM VIOLÊNCIA, SEM EXCLUSÃO SOCIAL E PELA DEFESA DO SUS”.

CERTOS DE QUE CONTAREMOS COM SUA PARCERIA E RESPONSABILIDADE SOCIAL, AGRADECEMOS.

ATENCIOSAMENTE,

ALEXANDRE BELLAGAMBA DE OLIVEIRA
Movimento Nacional de Usuários da Luta Antimanicomial - MONULA
Movimento Nacional da Luta Antimanicomial - MNLA
Representante Titular dos Usuários na Comissão Estadual de Reforma Psiquiátrica do Rio de Janeiro - Conselho Estadual de Saúde CES SES-DEC/RJ
Conselheiro da APACOJUM - Associação de Saúde Mental Juliano Moreira/RJ
Sócio da ABRASME
Usuário do Caps de Cabo Frio
Iracema Polidoro
APACOJUM - Presidente da Associação
Tel.: (21) 2456-7643 - Cel.: (21) 9153-2667 - Email:cemapolidoro@bol.com.br
Email:apacojum@bol.com.br
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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Segunda poética, do Bill

A felicidade sentava-se todos os dias
no peitoril da janela.

Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas
faces humanas.

E como menino que era,
achava um grande mistério no seu próprio nome.

{ Jorge de Sena }

sábado, 21 de agosto de 2010

PARA ALÉM DO MODO PSICOSSOCIAL

Publicado em 20/08/2010 por reformapsiquiatrica http://reformapsiquiatrica.wordpress.com/2010/08/20/para-alem-do-modo-psicossocial/

A partir de uma palestra da Nicácio sobre o Modo Psicossocial fiz algumas anotações e reflexões para melhor absorver o conteúdo.

Bom, no trabalho com o usuário do serviço de saúde mental nosso processo de avaliação precisa estar mais atrelado ao atribuir valor do que ao ato de fiscalizar, desse modo estamos promovendo reabilitação psicossocial.

Este trabalho precisa ainda nortear-se por uma perspectiva teórica, e, dentro da perspectiva teórica basagliana e de Saraceno, entende-se a reabilitação implicada com o resgate do exercício dos direitos de cidadania.

Ao abordarmos o tema da reabilitação psicossocial devemos ter em mente que há vários olhares e perspectivas possíveis, não há uma verdade absoluta, há, isto sim, diversas linhas de trabalho.

Parafraseando Paulo Amarante, a tradição basagliana é a desinstitucionalização, a superação dos manicônios, a saída das pessoas dos hospitais psiquiátricos.

Ao lidarmos com o atendimento em serviços de saúde mental o recurso da territorialização é bastante eficaz, pois viabiliza o protagonismo dos usuários e familiares em sua convivência no dia-a-dia inseridos na comunidade.

O processo da territorialização é parte da transformação cultural, importante para que a transformação estrutural não seja limitada a mudanças físicas na estrutura dos locais de atendimento sem o devido cuidado e atenção às pessoas em seus direitos civis.

Refletindo sobre valores humanos, temos que a liberdade é a maior descoberta da psiquiatria. Que a liberdade é um direito fundamental da pessoa com sofrimento mental pode ser algo óbvio, mas o óbvio é difícil quando se coloca o homem frente a frente consigo mesmo, com sua humanidade e com toda a fragilidade envolvida nisto.

A institucionalização implica também na perda de direitos. O louco pertence a um grupo social considerado a princípio sem direitos. Neste contexto, a Reforma Psiquiátrica vem em prol da pessoa em seu livre estar no mundo, é uma concepção ético-política.

O louco deve ter garantido, inclusive, seu direito de recusar o tratamento e o cuidado. É neste ponto que nossa responsabilidade ético-sanitária de não abandonar a pessoa a sua própria sorte pode conflitar-se com os direitos da pessoa. Este desafio está presente no dia-a-dia do nosso trabalho: “Nós sabemos o que é melhor para os usuários?” O que é melhor para os usuários surge a partir do diálogo constante. Por exemplo, o usuário que não pode sair do CAPS é “distraído” com um convite para ver televisão? Isso não é considerar a priori que ele não tem condição para diálogo e negociação? É preciso conversar mais com os usuários aos invés da adoção de uma atitude prescritiva. Não podemos invalidar os saberes das pessoas. O usuário do serviço precisa se apropriar do processo. Os projetos terapêuticos precisam ser co-produzidos em um campo de negociação com os familiares e com os usuários. Os projetos terapêuticos se dão enquanto projetos de vida ou projetos para a vida. Assim é possível pensar a superação da lógica asilar com produção de uma nova realidade que libere a sociedade da necessidade do manicômio através de uma mudança cultural. A superação da lógica manicomial implica no compartilhamento de responsabilidades.

Alguns dos direitos fundamentais são: trabalho, cultura e escola. Os valores devem estar centrados nas pessoas e não nas instituições. O serviço precisa ser construído de acordo com as necessidades das pessoas.

O objeto do modo psicossocial não é a doença e também não é estático. O objeto é a existência e o sofrimento e está em constante transformação. Sendo assim, o horizonte da intervenção não é a cura como meta ideal, mas a superação da idéia de saúde como ausência de doença.

Serviços fortes são fortes em recursos para produzirem mensagens e valores. Serviços devem ser fortes no reconhecer o usuário em sua singularidade e complexidade. É no campo das relações entre os fortes e os considerados frágeis que Saraceno critica a idéia de auto-suficiência. É preciso uma transformação cultural da instituição para viabilizar a transformação estrutural do serviço. Os serviços tornam-se substitutivos a partir de suas práticas concretas. O serviço não pode ser pensado como uma finalidade em si. Pensar o serviço como um recurso implica no constante questionamento do que se está produzindo no serviço.

Hospitalidade integral pode ser definida como atenção contínua 24 horas à pessoa dotada de direitos, não confinada/isolada, hospitalidade esta com o objetivo de diminuição dos conflitos envolvendo a pessoa e seu contexto ambiental, através de um cuidado de contato, com construção de vínculo, cuidado intensivo.